Saúde republica site oficial da covid sem dado total de mortes e histórico

Agora, os únicos dados presentes do Brasil no portal são os de casos recuperados novos, casos novos confirmados e novos óbitos

Imagem: reprodução/Site oficial da covid-19

Imagem: reprodução/Site oficial da covid-19

Um dia após ser tirado do ar para uma "manutenção" não anunciada, o site oficial da covid-19 , alimentado com o balanço da pandemia pelo Ministério da Saúde, voltou hoje ao ar depois de passar mais de 19 horas. Porém, à exemplo do que ocorreu ontem com a atualização diária dos dados de diagnósticos, óbitos e curados, deixou de trazer números consolidados sobre a doença e o histórico de sua evolução desde o primeiro caso brasileiro.

Agora, o site apresenta apenas os dados incluídos nas últimas 24 horas na base de dados do governo — o que não significa que ocorreram de ontem para hoje.

Assim, em vez de noticiar as 35.026 mortes e 645.771 casos oficializados até ontem, o site informa apenas novos casos de recuperados, diagnosticados e óbitos.

Até ser retirado do ar ontem, o site costumava apresentar um balanço detalhado sobre a situação da pandemia de covid-19 no país. Entre os dados que deixaram de ser disponibilizados, estão:

  • curva de casos novos por data de notificação e por semana epidemiológica
  • casos acumulados por data de notificação e por semana epidemiológica
  • óbitos por data de notificação e por semana epidemiológica
  • óbitos acumulados por data de notificação e por semana epidemiológica
Somadas, as informações permitiam compreender as curvas de cada índice ao longo do tempo e o estágio da pandemia no país. Além disso, servem para fomentar pesquisas e decisões ligadas ao tratamento de pacientes, além de permitir análises sobre a eficácia das ações brasileiras.

Procurado pelo UOL, o Ministério da Saúde não explicou as mudanças na divulgação ou a situação do portal oficial que desde o início da pandemia estava no ar.

Contudo, o novo formato de divulgação dos dados parece atender a ordem do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). No início da noite, disse a jornalistas: "É para pegar o dado mais consolidado. E tem que divulgar os mortos no dia. Ontem, por exemplo, dois terços dos mortos eram de dias anteriores. Tem que divulgar o do dia."

O presidente também defendeu que a pasta divulgue no final da noite os dados sobre a pandemia no país como forma de atacar a Rede Globo. "Acabou matéria no Jornal Nacional", disse.

Saúde esvazia dados

Após três gestões diferentes e mais um período sem ministro, o Ministério da Saúde agora trata e comunica a covid-19 de maneira bem diferente em relação ao início da pandemia no país. As entrevistas coletivas, antes diárias, perderam frequência, presença e qualidade, e a pasta passou a cancelar eventos em cima da hora e a atrasar até cinco horas a publicação dos dados oficiais.

O UOL organizou uma linha do tempo dos balanços da Saúde e ouviu especialistas sobre as mudanças de direção do ministério e o enevoamento em torno da consolidação de informações oficiais. A mudança mais recente é quanto ao horário da atualização diária de novos casos e mortes por covid-19: a divulgação chegou a ser feita às 17h no início da pandemia, mas nesta semana passou a ser consolidada por volta das 22h.

Quando questionado, o Ministério da Saúde aos poucos mudou a justificativa para os atrasos. Na quarta-feira (3) falou em "problemas técnicos"; ontem o discurso mudou para alegar "necessidade de checagem de informações"; e hoje a pasta admitiu que busca "ajustar o horário de divulgação dos dados" por causa das tais checagens.

Linha do tempo

23 de janeiro, a primeira coletiva
O Ministério da Saúde começou a falar de coronavírus cerca de um mês antes de o Brasil diagnosticar seu primeiro caso. A pasta era comandada por Luiz Henrique Mandetta, mas ele foi ausência da primeira entrevista coletiva sobre o tema porque estava em Davos, na Suíça, no Fórum Econômico Mundial. O ministro em exercício era João Gabbardo, hoje chefe do centro de combate à covid-19 em São Paulo.

12 de fevereiro, a décima coletiva
A frequência das atualizações sobre a pandemia já era grande em fevereiro, mês que marcou a chegada do vírus ao Brasil. Na época Mandetta ainda não participava de todas as entrevistas coletivas e, quando aparecia, geralmente começava a apresentação com um bate-papo. Quando o ministro não estava, o secretário executivo Gabbardo atendia à imprensa junto ao secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira.

30 de março, mudança de local
Ao final de março, enquanto o Brasil chegava a 200 mortes, Mandetta e Bolsonaro viviam uma tensão pública. O ministro ganhava popularidade e há dias contrariava o presidente sobre o isolamento social, então o governo informou que as coletivas de imprensa Saúde dali em diante seriam no Palácio do Planalto -- não mais no prédio do Ministério.

Oficialmente, seria uma tentativa de passar uma 'imagem de união' entre os dois; questionado no mesmo dia, Mandetta admitiu que a relação conturbada era "parte do problema" no enfrentamento à pandemia.

6 de abril, reunião na hora H
Mesmo no Planalto, Mandetta continuou ganhando protagonismo no enfrentamento da crise, por fazer recomendações diametralmente opostas às falas de Bolsonaro. A essa altura, a atualização dos dados de covid-19 acontecia às 17h e com o ministro respondendo ao vivo perguntas de jornalistas, em coletivas diárias. Bolsonaro então decidiu marcar uma reunião com o ministro no mesmo horário. Enquanto o Brasil batia mil mortes por covid-19, ambos faziam queda de braço pública e trocavam indiretas até Mandetta cair, em 16 de abril.

7 de maio, sem mais detalhes
Já sob a gestão do oncologista Nelson Teich, o Ministério da Saúde mudou a periodicidade da divulgação de estatísticas sobre as vítimas fatais de covid-19. Informações como gênero, cor e faixa etária dos mortos costumavam ser apresentados diariamente, mas a partir de então foram espaçadas, sem justificativa. A pasta chegou a ficar dez dias sem atualizar estes dados.

13 de maio, coletiva cancelada
O Ministério da Saúde faria uma apresentação para detalhar as diretrizes da proposta para isolamento social nos diferentes estados, mas cancelou a coletiva em cima da hora. Nelson Teich vivia processo de fritura por parte de Bolsonaro, e àquela altura a saída já parecia questão de tempo -- seria oficializada dois dias depois. O cancelamento de uma coletiva da pasta voltou a acontecer na última quarta-feira (3).

19 de maio, ocultação de cadáveres
No dia em que o Brasil registrou mais de mil mortes de covid-19 em 24 horas, o ministério dedicou sua entrevista coletiva à doação de leite materno. No mesmo dia a pasta deixou de publicar os dados oficiais da doença nas redes sociais: em vez do boletim completo, passou a replicar visões "positivas", com recuperados da doença.

O próprio site que o ministério mantém e alimenta com estatísticas sobre diagnósticos e óbitos mudou de cara para parecer mais otimista. A posição e o tamanho do anúncio da quantidade de recuperados ganhou mais destaque do que os casos e as mortes.

20 dias sem ministro
A partir da saída de Teich, o Ministério da Saúde ficou três semanas sem ministro enquanto o Brasil passava das 30 mil mortes por covid-19. O general Eduardo Pazuello foi "oficializado como interino" no começo desta semana, mas ainda não participou de uma entrevista coletiva no exercício deste cargo.

No lugar dele, os subordinados é que têm falado, e com frequência evitam responder perguntas. Nos últimos dias, cada entrevista coletiva com funcionários tem pelo menos um "por favor, peço para direcionar a questão à assessoria de imprensa".

3 de junho, atraso de cinco horas
A atualização de casos e mortes oficiais por covid-19 atrasou cinco horas e foi apresentada apenas às 22h. O mesmo aconteceu ontem e hoje, sugerindo um novo modo operante por parte do Ministério da Saúde. Questionado, Jair Bolsonaro falou que "agora acabou matéria no Jornal Nacional".

5 de junho, boletins também atrasados
Em abril, o ministério prometeu divulgar semanalmente um boletim epidemiológico semanalmente, para não só apresentar dados referentes à covid-19 mas também interpretá-los. As três últimas edições publicadas no site da pasta são de 8, 18 e 25 de maio.